quarta-feira, 3 de julho de 2013
"Segue-me"
"Gosto de lembrar que o primeiro nome dado aos discípulos de Jesus, segundo nos conta os Actos dos Apóstolos, foi: "os do Caminho". E só em Antioquia recebemos o nome de "cristãos". Aquele primeiro nome continua a evocar esta realidade de movimento e procura, de "andar com" Jesus e com outros, de seguir Alguém que se chamou a si mesmo "O caminho", que importa nunca perder na identidade cristã. Se o nosso povo diz, com sabedoria, que "parar é morrer", sabemos que todas as formas de instalar e acomodar a experiência cristã, de retirar às palavras de Jesus a sua força profética de transformação, de cristalizar o Reino de Deus em estruturas simplesmente humanas que nos "endeusam" em vez de servir o projecto de amor de Cristo, são claramente provisórias. A fé em Jesus Cristo é dinâmica, anda de mão dada com a esperança e oferece generosamente actos de amor.
Caminhar implica despojamento, escolha do essencial, uma meta e uma companhia. E ainda que a meta não se vislumbre completamente, é bom saber com quem vamos, porque o caminho até se torna menos árduo se o fazemos com outros. Na decisão de Jesus há uma continuidade e uma ruptura: Jerusalém era a cidade santa onde era sempre maravilhoso poder ir, mas é também a cidade que rejeitou os profetas e a novidade da mensagem de Jesus vai confrontar-se com a lei empedernida dos judeus. Por isso não basta querer seguir Jesus, como desejam os do evangelho de hoje. É preciso revestir-se das suas atitudes de humildade e coragem. É necessário não buscar seguranças a não ser a de anunciar o amor libertador de Deus, de não ficar preso aos laços que impedem de abraçar o horizonte maior do Reino, de não estar voltado para o passado mas olhar para o futuro que Jesus sempre nos propõe. Não é verdade que muitos futuros não se concretizam porque nos agarramos demasiado ao passado? E quantas pessoas encerramos em julgamentos porque deixamos de confiar na esperança? Que diremos a Jesus, para quem o futuro de cada pessoa vale mais que todo o passado, e sempre enche de esperança o vazio que o mal produz?
Seguir Jesus não é algo solitário. É a derrota do individualismo, que pode gerar alguns heróis mas não é capaz de fazer nenhum santo. Com Ele aprendemos que só somos uns com os outros. Jesus não quis ser sem nós, Ele que é "com o Pai e o Espírito". Seguimo-l'O em comunidade, na imensa e rica diversidade de laços de comunhão que podemos sempre a criar (e às vezes também quebramos, mas não podem, a qualquer momento, ser religados?). O importante é não nos acomodarmos, quase como dizia Fernando Pessoa "sem que um sonho no erguer de asa / Faça até mais rubra a brasa / Da lareira a abandonar". Não caiamos na tentação de adaptar o evangelho a uma vida "assim-assim", talvez uma "meia-vida", que nunca enche o coração nem realiza o que somos. Dizia o Papa Francisco no Pentescostes passado: "Muitas vezes seguimo-Lo e acolhemo-Lo, mas até um certo ponto; sentimos dificuldade em abandonar-nos a Ele com plena confiança, deixando que o Espírito Santo seja a alma, o guia da nossa vida, em todas as decisões; temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas, faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes"."
domingo, 9 de junho de 2013
Profetizar no Século XXI
1. Descobrir e propor o projeto de Deus para o mundo e para os
homens. O profeta é homem do seu tempo, marcado pelas descobertas,
conquistas, contradições e esperanças dos homens do seu tempo… É também
alguém com uma fé profunda, com uma consciência muito forte da presença
de Deus na própria vida. A vida de união e de comunhão com Deus vai
impregnando a vida do profeta, de modo que vai aprendendo a interpretar
todos os acontecimentos políticos, sociais e religiosos à luz de Deus e
do seu projeto. Só deste modo ele pode apresentar o projeto de Deus para
os homens hoje.
2. Sentir-se chamado por Deus, receber de Deus uma missão, ser
enviado por Deus ao mundo. Deus chama de muitas formas… Um sonho, uma
leitura, um acontecimento, um sinal… Às vezes descobre-se o seu apelo no
rosto de um pobre ou de um escravizado; outras vezes, nas páginas dos
jornais; outras, nas necessidades da Igreja ou da sociedade; outras, nos
acontecimentos turbulentos do presente; outras, mais simplesmente, nas
palavras de um amigo ou de um mestre… Ao ser chamado, o profeta recebe
de Deus uma missão.
3. Estar marcado pelas experiências de solidão, angústia, sofrimento,
crise, rejeição, incompreensão… Ser fiel à missão de Deus, mesmo
quando, com essa atitude, o profeta se sente abandonado, rejeitado,
incompreendido. No fundo, trata-se de arriscar a vida, na certeza da
presença de Deus.
4. Estar desinstalado, num território concreto… como espaço de
verificação e de rejeição da profecia anunciada. Ninguém é profeta na
sua terra, é certo. Mas é na terra, no espaço concreto, na escola, no
local de trabalho, na comunidade, na Igreja… que a profecia deve ser
anunciada. Com coragem, com desassombro.
5. Viver no quotidiano da existência, na minha situação concreta,
aqui e agora. Como ser profeta, aqui e agora, na minha situação, face
aos problemas reais que me entram pelos olhos e interpelam o meu coração
aberto ao Pai e ao próximo?
6. Anunciar as Boas Novas de sempre duma forma sempre nova. O
conteúdo do anúncio profético é sempre o mesmo. Mas esta única Palavra
de Deus deve ressoar duma forma sempre nova…
7. Assumir um modo novo e inédito de viver e anunciar o essencial.
Anunciar um modo novo de viver o essencial. E o essencial é a fé, a
esperança e a plenitude do amor, das quais os profetas foram testemunhas
vulneráveis mas obstinados. O Espírito sopra onde quer e como quer, com
liberdade imprevisível, não se deixando amarrar em esquemas exclusivos
ou demasiado estreitos…
8. Escutar, aprender, receber, acolher… o Deus do povo e o povo de Deus.
9. Ser coerente entre a palavra anunciada e as opções pessoais.
Quantos pretensos profetas gritam diante dos microfones, ditam sentenças
nos jornais a torto e a direito, gesticulam nas praças e na televisão…
mas não dão testemunho com a sua vida. Por isso, não mudam as coisas! Há
incoerência entre pensamento e vida, entre ideal e prática.
10. Denunciar não apenas os pecados, mas as estruturas de pecado, promover e estimular novas estruturas de virtudes e valores.
11. Testemunhar entre o silêncio intenso-pleno e o silêncio
despojado-vazio. Diante dos dramas recentes e atuais, diante das
angústias e sofrimentos, diante dos vazios e da falta de esperança, o
profeta dá testemunho, com o seu silêncio, do silêncio de Deus. Não é
fácil, mas pode ser um silêncio fecundo que fala.
12. Lutar contra os novos ídolos de hoje: detetá-los, desmascará-los, denunciá-los…
13. Anunciar a fé e a justiça, assumir a esperança como raiz da
profecia. Não se trata de duas coisas distintas: a fidelidade ao Deus
vivo exige a defesa dos direitos do pobre. A mensagem profética, na sua
capacidade de denúncia, integra-se e aperfeiçoa-se, especificando-se, na
proposta de uma utopia, na “proposta de uma alternativa”, chamada
esperança. Sem esperança não há profecia.
14. Viver pobre a profecia da gratuidade,
da sobriedade, da essencialidade: sentir a alegria de dar,
gratuitamente; experimentar a força do Amor criador de Deus; praticar
diariamente uma vida simples, sóbria; ir profeticamente contra a
corrente do domínio e do consumo; ser capaz de desmascarar as raízes do
egoísmo e as suas consequências…
15. Viver obediente a profecia da
multiculturalidade: descobrir a única vontade de Deus Pai; deixar os
isolamentos, os nossos planos egoístas; procurar a vontade de Deus na
vontade da comunidade; deixar de lado o escândalo da excomunhão mútua;
comungar no mesmo Deus…
16. Viver casto a profecia da sexualidade
redimida: testemunhar a redenção de Cristo na globalidade do nosso ser
(inteligência, liberdade, fantasia, corpo, afetos, sentidos); ser
profetas da libertação integral…
segunda-feira, 3 de junho de 2013
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Para ler o Concílio Vaticano II - parte 3
Constituição Dei Verbum
O interesse pelos temas ligados à Sagrada Escritura era muito forte na época do Concílio Vaticano II. A Constituição Dei Verbum (A Palavra de Deus - DV) é fruto de um caminho de amadurecimento que levou anos, sofrendo grande influência das Encíclicas Providentissimus Deus, de Leão XIII; Spiritus Paraclitus, de Bento XV, e Divino Afflante Spiritu,
de Pio XII. Um aprofundamento lento, mas que reflectia uma necessidade
da Igreja: dar o devido valor à Sagrada Escritura. Por ocasião do
Concílio, chegaram a Roma 102 proposições que foram seleccionadas,
agrupadas e aprofundadas pela comissão preparatória. O texto actual foi
promulgado em 18 de Novembro de 1965, após receber 2.344 votos a favor e
6 contra.
O maior objectivo do Concílio era
difundir a Palavra de Deus, em cumprimento do desejo de Jesus Cristo,
que anunciou: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Notícia a toda a
Humanidade" (Me 16,15). Logo no Proêmio destaca-se o objectivo de "propor
a genuína doutrina sobre a Revelação divina e a sua transmissão, para
que o mundo inteiro, ouvindo, acredite na mensagem da salvação,
acreditando, espere e, esperando, ame" (DV, n. 1).
A estrutura do documento é bastante
simples, mas concentra um ensinamento muito belo e profundo. O capítulo I
é sobre a Revelação e descreve o processo contínuo de comunicação entre
Deus e o ser humano. Revelar é uma palavra que deriva do latim revelare
e significa tirar o véu, divulgar, mostrar, dar-se a conhecer. São
muitos os sinónimos, mas a ideia central é exactamente esta: manifestar.
Deus revelou-Se, deu-Se a conhecer aos nossos antepassados, manifestou a
Sua vontade e a Sua verdade diversas vezes ao longo da história, com o objectivo de conduzir todos à comunhão consigo. Na plenitude dos tempos,
revelou-se de modo pleno e definitivo através do seu Filho, Jesus
Cristo, o Verbo Encarnado. Em poucas linhas, a Dei Verbum
concentra os fundamentos de toda a Teologia da Revelação. O seu conteúdo
é bastante profundo e, por isso, ainda há muito a ser aplicado. Não é
por acaso que a última encíclica de Bento XVI, sobre a Palavra de Deus,
se chama Verbum Domini, numa clara referência e continuidade ao documento conciliar.
O capítulo II ocupa-se da transmissão da
Revelação divina. Confirma que o nosso acesso à Revelação acontece
através da pregação dos apóstolos e dos seus sucessores. É a chamada
Tradição, que se origina nos apóstolos e progride na Igreja sob a
inspiração do Espírito Santo (DV, n. 8). A Tradição ajuda a compreender a
Escritura, pois as duas estão intimamente relacionadas, são dois
pilares da fé cristã, provêm de Deus e tendem ao mesmo fim: conduzir o
ser humano a Deus.
A seguir, o documento confirma que a
Sagrada Escritura foi escrita por mãos humanas, mas sob inspiração do
Espírito Santo. Para a interpretação da Bíblia é preciso ter em conta a
sua inspiração divina, os géneros literários, os estudos exegéticos e
hermenêuticos, e tudo o mais que possa contribuir para um aprofundamento
e melhor compreensão do texto. Incentivam-se assim as pesquisas e
estudos bíblicos, primeiramente por parte dos pastores e pregadores, mas
também de todos os cristãos, pois não é possível amar o que não se
conhece. Como bem destacou frei Herculano Alves: não é possível viver o
Cristianismo sem conhecer o Livro onde está escrito o que é ser cristão.
[...] A Bíblia nunca entrará realmente na vida dos cristãos, em
particular, e na vida da Igreja, em geral, sem que a conheçamos
previamente.
Os capítulos IV e V tratam,
respectivamente, do Antigo e do Novo Testamento. O Antigo Testamento
contém um retrato da história da salvação e serviu para preparar o
advento de Cristo, que veio instaurar o Reino, como é descrito no Novo
Testamento.
Por fim, vemos como a Sagrada Escritura
age na vida da Igreja (capítulo VI). Ali vemos muito explícito o convite
ao aprofundamento da Palavra de Deus através da tradução da Bíblia para
todas as línguas, além do estudo e da investigação. A Escritura deve
ser a alma da Teologia (DV, n. 24). De fato, a partir do Concílio, a
linguagem bíblica generalizou-se no campo teológico e pastoral. Foi uma
das revoluções provocadas pelo Concílio na Teologia e na vida da Igreja.
A Constituição Dei Verbum deu origem a muitos outros bons
frutos, tais como a renovação bíblica em âmbito litúrgico, teológico e
catequético; a leitura e aprofundamento da Bíblia através do apostolado
bíblico, com o aparecimento de diversos grupos, movimentos e
iniciativas; a divulgação da lectio divina; a animação bíblica da pastoral.
Há, porém, muito ainda por fazer. Muitos
cristãos estão distantes da Bíblia, ignorando os seus ensinamentos e
verdades. Muitos também fazem uma leitura fundamentalista ou superficial
que induz ao uso erróneo do seu ensinamento. Enfim, muitos ainda não
foram iluminados pela Palavra de Deus, que é "lâmpada para os meus pés e
luz para o meu caminho" (SI 119 [118], 105). O apelo do Concílio é
fazer conhecer sempre mais e melhor a Palavra de Deus e que "encha cada
vez mais os corações dos homens o tesouro da Revelação, confiado à
Igreja" (DV, n. 26).
Esse apelo é tão actual que o último
sínodo dos bispos, realizado de 5 a 26 de Outubro de 2008, falou exactamente sobre "a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja". No
documento preparatório do sínodo, o secretário-geral, Nikola Eterovi,
enfatizou a ainda actual necessidade de conhecer integralmente a fé da
Igreja sobre a Palavra de Deus, de alargar com métodos adequados o
encontro com a Sagrada Escritura por parte de todos os cristãos e, ao
mesmo tempo, acolher os novos caminhos que o Espírito hoje sugere, para
que a Palavra de Deus, nas suas várias manifestações, seja conhecida,
ouvida, amada, aprofundada e vivida na Igreja, e assim se torne Palavra
de verdade e de amor para todos os homens.
O sínodo trabalhou a relação entre Revelação, Palavra de Deus e Igreja, numa clara referência e actualização da Dei Verbum. Juntando a releitura do documento conciliar com as actualizadas reflexões do sínodo, expressas na Encíclica Verbum Domini,
de Bento XVI, temos um grande incentivo para aprofundarmos a leitura da
Bíblia através do estudo individual, da participação em cursos de
formação e escolas bíblicas, da catequese, da busca de material de apoio
e, claro, da oração diária, especialmente a lectio divina.
Oxalá ouvíssemos na nossa comunidade as palavras dirigidas por Paulo aos
Tessalonicenses: "Irmãos, rezai por nós, a fim de que a palavra do
Senhor se espalhe rapidamente e seja bem recebida, como acontece entre
vós" (2Ts 3,1).
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Carta ao evangelista da misericórdia
Caríssimo Lucas
Saúdo-te como saudaste Teófilo, o destinatário do Evangelho e dos Actos que escreveste. Seria um verdadeiro “amigo de Deus”, de carne e osso, e teu amigo também, ou pensavas já em nós que, ao longo dos tempos, iríamos saborear a obra que nos deixaste? E que muitos, como eu próprio, iríamos começar a conhecer Jesus pela leitura do teu evangelho? O certo é que o teu olhar sobre Jesus Salvador, com a particular predilecção pelos mais pequeninos, a sensibilidade aos pormenores, a insistência na misericórdia de Deus que Jesus oferece, o lugar das mulheres e dos estrangeiros, as narrações tão vivas da infância de Jesus e o lugar materno de Maria são alguns aspectos que te caracterizam. E que alegria escrever-te neste Dia que dedicamos às mães!
Santo Ireneu e outros Padres da Igreja afirmam que eras médico (a atenção com que narras como Jesus suou sangue na agonia, parece revelá-lo). São Paulo apresenta-te como um companheiro da sua missão e fala de ti em três cartas. Apetece tanto perguntar-te: Escutaste os relatos da infância de Jesus pela voz de Maria, sua mãe? Como foste sensível às parábolas que só tu contas: o bom samaritano, o filho pródigo, o fariseu e o publicano? E como dizer-te o encanto de ouvir o relato dos discípulos de Emaús? Talvez as tuas raízes interiores de cuidar e curar as pessoas tenham marcado a sensibilidade aos gestos de cura e salvação que Jesus realizou e às palavras de libertação e de misericórdia que enchiam de alegria os mais sofredores e abandonados. Essa presença da misericórdia de Deus em Jesus e o seu desejo que os discípulos a aprendessem e transmitissem é uma constante quando lemos o teu evangelho. Uma misericórdia que é universal, que se dirige a todos (por isso deves ter gostado tanto de andar com São Paulo a levar Jesus para lá das fronteiras do Judaísmo), e que transforma a vida daqueles que acolhem Jesus.
Queria agradecer-te também por nos teres escrito os Actos dos Apóstolos. E por não lhe teres posto um final pois, como certamente já acreditavas, este é o livro que os cristãos continuamos a escrever. Um livro de páginas luminosas e outras bem esborratadas, mas um livro que continua a ser obra nossa e do Espírito Santo, em que aprendemos tanto sempre que o escutamos, mas também o enriquecemos com os mil e um modos de reconhecer e testemunhar Jesus vivo no mundo. A Igreja como obra em construção compromete-nos a viver mais profundamente a nossa fé e a darmo-nos em caridade. Não há falta de trabalho nesta empresa e todos são importantes e únicos. Neste domingo em que escutamos as sábias decisões daquele encontro em Jerusalém, a que convencionámos chamar primeiro Concílio, percebemos a pedagogia do Espírito Santo que nos convida à escuta mútua e a abrirmo-nos aos seus apelos. Quantas vezes deixamos de O ouvir, simplesmente porque não dialogamos bem, nem procuramos em conjunto!
A tradição fez de ti o patrono dos médicos e dos artistas (talvez por ser-te atribuída a pintura de um ícone de Nossa Senhora com o Menino) e és representado com um livro na mão e um boi aos pés, que alguns interpretam como símbolo da fidelidade e do sacerdócio de Jesus, bem como do teu desejo de fidelidade na narração dos acontecimentos evangélicos. E pouco sabemos do final da tua vida. Mas o tesouro dos escritos que nos deixaste aproxima-nos todos os dias de Jesus e do seu projecto de amor. E reanima o desejo de sermos misericordiosos como Ele e como o Pai!
Obrigado São Lucas!
sábado, 4 de maio de 2013
Para ler o Concílio Vaticano II - parte 2
Constituição Lumen Gentium
Este documento envolve toda a Igreja na
sua estrutura e na sua actividade. O primeiro capítulo fala do mistério
da Igreja que “é, no Cristo, como que o Sacramento, ou seja, o sinal e o
meio da união íntima com Deus e da unidade de todo o género humano”
(n.1, e descreve a relação da Igreja de Deus, Pai, Filho e Espírito
Santo).
O segundo capítulo apresenta a Igreja
como Povo de Deus, constituído pelo Baptismo e do qual a cabeça é Cristo,
a caminho através da história e destinado a reunir todos os homens.
Lembra os laços entre a Igreja e os Cristãos não católicos, seus
relacionamentos com os não-cristãos e afirma o carácter missionário do
Povo de Deus. Apresenta em seguida os membros do Povo de Deus: a hierarquia (bispos, sacerdotes e diáconos) e os leigos.
O terceiro, sobre a hierarquia, afirma a
colegialidade do episcopado (os bispos sucessores dos apóstolos, ao
redor do Papa sucessor de Pedro, seu chefe, receberam de Cristo a
responsabilidade da Igreja universal) e decide que os Episcopados locais
podem restaurar o diaconado como uma Ordem permanente, e conferir esta
Ordem a homens casados.
O capítulo quarto, sobre os leigos,
mostra-lhes a participação na vida e na missão da Igreja (culto,
proclamação do Evangelho, orientação para o Cristo da vida e das actividades de toda a humanidade).
O quinto capítulo fala da vocação à santidade por parte de todos os membros do Povo de Deus.
O capítulo sexto, sobre os religiosos, explica a função da vida religiosa em relação à vida espiritual de todo o povo cristão.
O sétimo capítulo apresenta a Igreja, peregrina na terra, para a vida eterna, em comunhão com a Igreja celeste.
Finalmente o capítulo oitavo apresenta a
função materna da Virgem Maria no mistério de Cristo e da Igreja. Está
em sintonia com este texto que Paulo VI, no dia 21 de Novembro de 1954,
deu à Virgem o título de Mãe da Igreja, porque ela, enquanto mãe de
Cristo, é também mãe de todo o Povo de Deus, seja dos fiéis como dos
pastores.
Ao documento foi adicionado por vontade
explícita de Paulo VI, uma "Nota Explicativa Prévia", contendo alguns
fundamentos sobre o texto para evitar interpretações erradas. Esta Nota
deve ser considerada parte integral do mesmo Documento.
sábado, 27 de abril de 2013
Para Ler o Concílio Vaticano II - parte 1
Constituição Sacrosanctum Concilium
A Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada
Liturgia foi o primeiro documento aprovado pelo Concílio Vaticano II.
Este documento tem como objectivo a adaptação da Liturgia, levando a
Igreja Católica a uma grande renovação litúrgica. Ela destaca-se por
vários aspectos como: a reorganização e implicação da Eucaristia (Missa) no Rito
Romano; o uso predominante da língua vernacular nas celebrações
litúrgicas; a mudança na posição do sacerdote em relação ao altar
(depois do Concílio, os padres passaram a celebrar a Eucaristia de frente
para as pessoas). Todas essas mudanças promoveram maior participação da
assembleia na Missa.
O Sagrado Concílio declara que a Santa
Igreja tem a tradição de guardar aos fieis a sã Tradição. Cristo está
presente no sacrifício da Eucaristia sob as espécies eucarísticas e na pessoa
do ministro que se oferece agora pelo ministério sacerdotal, Ele é o
mesmo que Se ofereceu na Cruz. Está presente com o Seu dinamismo nos
Sacramentos, de modo que, quando alguém baptiza, é o próprio Cristo quem
baptiza. Ele está presente na Sua Palavra, pois é Ele mesmo quem fala.
“Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio
deles”.
Todos os que crêem têm o dever de pregar
constantemente a fé, a reflexão, e dispô-lo aos Sacramentos. O
cristão tem o dever de mostrar a luz para o mundo e glorificar o Pai diante dos homens. Através da Liturgia a
Eucaristia se faz alimento especial para nós como fonte de graça. Por
meio dela, os fieis têm a eficácia da santificação em Cristo e a
glorificação de Deus. A eficácia da Eucaristia é plena, é necessário que
os fieis celebrem a Liturgia com rectidão de espírito, onde as palavras e a
sua mente se pronunciam para a cooperação da graça de Deus, e que não
aconteça de os fieis receberem a Eucaristia em vão.
O cristão é chamado a rezar em comum na
participação na Sagrada Liturgia, por esta razão que no Sacrifício da Eucaristia pedimos ao Senhor que, tendo aceite a oblação da vítima
espiritual, faça de nós uma oferta eterna a Si consagrada.
domingo, 14 de abril de 2013
Carta a Simão Pedro
Carta a Simão Pedro
Caríssimo Simão Pedro
Perdoa-me esta franqueza de me dirigir a ti, o príncipe dos Apóstolos, como se fôssemos amigos de longa data. Mas eu, pelo menos, sinto-me assim, porque desde o meu grupo de jovens, em que Jesus e os seus amigos se tornaram vivos e presentes, tu sempre me encantaste. E quando te vejo nas imagens das nossas igrejas gosto de te imaginar com um olhar mais vivo e um entusiasmo mais apaixonado.
Vim para o pé do mar, aqui em Carcavelos, que é bem mais agitado do que o teu querido Mar da Galileia. Onde primeiro Jesus te cativou e depois te confirmou. Percebeste que Jesus sabia mais de pesca do que tu, e daquela pesca que se chama salvação, libertação do mal para que os homens sejam felizes. Também tu foste pescado e as tuas respostas de amor curaram os "nãos" das trevas da paixão. Ah!, se aprendêssemos contigo a dar mais importância ao amor do que às faltas, e a acreditar que o amor salva enquanto a condenação mata!
Somos tão parecidos contigo. Convencidos das próprias forças e ousados nas certezas, mas depois, frágeis e incoerentes na hora da verdade. Gosto da primeira resposta que deste a Jesus: "andámos a pescar toda a noite e não apanhámos nada, mas porque o dizes lançarei as redes!". É preciso humildade para saber tanto de pesca e ainda assim abrir a mente e o coração a um conhecimento maior. Diante da abundância de peixes revelaste essa humildade: "afasta-te de mim, Senhor, que sou pecador." Começavas a descobrir que o amor de Deus é infinitamente maior que os nossos pecados. E como é triste quem ainda julga e propaga o contrário.
Às vezes sinto inveja de teres estado tão perto de Jesus. A recebê-l'O em tua casa, a subir ao Tabor, a responder a muitas das suas perguntas, a ir ao seu encontro caminhando sobre as águas, a viver as suas alegrias e as suas dores. Essa foi e será sempre a melhor escola para ser cristão: andar com Jesus. E porque Jesus nunca anda sozinho, andar com os outros! Imagino que não terão sido fáceis os primeiros tempos da igreja a crescer. Quantas vezes terás sentido que era uma obra grande demais para um pescador da Galileia? E como gerir as tensões e as diferenças dentro das comunidades? Foi grande a tentação de ficar seguros no ritualismo judaico, não foi? E como integrar aquela universalidade que Paulo de Tarso difundia e fazia tantos abraçar Jesus como Salvador? Fidelidade à tradição mas, sobretudo, coragem para acolher a novidade do Espírito Santo devem ter enchido a tua vida! E deste-a também por Jesus, como Ele te tinha dito junto ao lago.
Todos temos muito a aprender contigo. Mas nestes primeiros dias do Papa Francisco, quero muito pedir-te que o acompanhes e inspires. Que ele possa ser autêntico e corajoso a propôr-nos a vida com Cristo. Que ele encontre as melhores ajudas no serviço curial que tens visto crescer na tua Roma, (alguma vez imaginaste Sagradas Congregações ou Tribunais Eclesiásticos?) Que possa promover a escuta mútua e o diálogo, a corresponsabilidade, a alegria de servir, o gosto de perdoar, a coragem de amar. Que não se sinta sozinho nem deixe que o enredem em tradições "douradas" mas nada evangélicas. Ajuda-o a não "romanizar" a Igreja, que vive e cresce em tantos lugares onde o Espírito Santo continua a levar Jesus ao coração de todos, pois a unidade é a comunhão nas diferenças. Sei que posso contar contigo.
Querido Simão Pedro, dá um grande abraço a Jesus, e a todos do céu que conheço e tanto amo. Obrigado pelo teu tempo!
domingo, 3 de março de 2013
"vou cavar-lhe em volta e deitar-lhe adubo"
Porque o nosso encontro de ontem (3 de Março de 2013) não pode ser esquecido... sobretudo... a Palavra não pode ser esquecida e tudo que ela recria em nós! O nosso Deus é paciente, espera, mas é exigente.... daqui a um ano vem colher os frutos!:)
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